Letras púrpuras para pensamentos incandescentes

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Terça-feira, Junho 01, 2004

 
Para Linch filmar...

É como se eu perdesse meu livre-arbítrio e aceitasse o que um roteiro me impõe. Sou personagem principal numa trama só minha. Meus passos não são mais do que um levantar de pés altamente ensaiado, e o fundo, por mais belo que seja, não passa de um cromaqui muito bem feito. Uma tela verde e o meu corpo. Um papel em branco e a minha alma. Alma esta que ofereço de bom grado, por não saber mais o que fazer com ela.

Pega o livro na cabeceira da cama, tira os óculos, coloca-os na mesinha e se embrenha na floresta de qualquer autor. No dia seguinte, os óculos sumiram. Ninguém entrou no quarto.
Mastiga a pipoca e cospe o milho num guardanapo branco. Pensa que é nojento, mas é assim que o diretor resolveu caracterizar a esquizofrenia da sua personagem. E aceita. O filme que acompanhava a pipoca não termina. Nos minutos finais, aqueles segundos que atencedem "A" grande revelação, são interrompidos por gritos na sala de estar do sobrado em que mora. O filme pára, a mocinha sente um cheiro estranho. Cheiro de realidade, ela diria. Aroma de carne sendo assada no andar de baixo e de sentimentos cozidos com pimenta.
O computador não responde aos seus chamados. As pessoas parecem caracterizadas demais para serem reais. E eis que a internet resolve lhe dizer a sua história de amor ípsis-literis. Abre uma página, e lá está! Ela, ele, todos. Todos cercados por um roteiro extra-meloso, tão fictício, que se parece realmente com a realidade. Surreal, banal, doce, desejo, fim, anjos, repulsa. Palavras que fora do contexto se tornam extremamente insignificantes, mas que no seu mundo, soam como certas.

A fumaça abaixa, sobe o som. Ela lembra de um rosto que não quer lembrar. Ela escreve para alguém que não vai entendê-la. Ela sonha com planos que a vão frustrar. Ela rouba frases de outros. Ela canta bem, mas nunca vai cantar para vc. Ela esconde, ela dissimula, ela sonha, ela sofre. Ela não sou eu. Tampouco é vc. Ela é um personagem triste, daqueles que entrariam numa banheira quente com uma gilete. Ela não se mataria,não, ela sabe que um anjo sempre vai salvá-la no final. E eu já disse o quanto ela adora finais?

posted by Fernanda Armstrong at 9:36 PM

 

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