Letras púrpuras para pensamentos incandescentes

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Quinta-feira, Outubro 14, 2004

 
- E até quando o senhor sugere que fiquemo nesse ir e vir do caralho?
- A vida toda...


E decidira assim, entre um sacolejo e outro do ônibus, que não bastavam serem amores para toda vida. Porque ainda estes, traem, mentem e escondem. E depois sempre sobram os perdões e as lágrimas que dizem em uníssono que "aquilo tinha sido só culpa do instinto, mas que nunca amara ninguém na vida como ela".
E não, não que acreditasse que um dia isso aconteceria com eles, mas achou conveniente que cada coisa dali para frente fosse explicada sempre.
O ar ficava rarefeito a cada vez que pensava nos olhos dele, que de fato eram de tamanhos diferentes, mas que eram os mais lindos que ela já tinha visto até então. Mais tarde diria o mesmo para os olhinhos do seu filho mais velho, que apesar de ter o gênio da mãe, teria a pele cor de canela e os olhos desiguais e intensos do pai.
E decidiu não jantar na hora de sempre, porque precisava escrever o que diria mais a noite quando ele ligasse para conversar sobre a amenidades e finalizasse com o dorme bem, minha linda que ela esperava o dia todo para ouvir. E ela queria lhe dizer coisas que não conseguiriam ser ditas olhando para ele, porque quando olhava para o seu rosto, se desconcertava, tinha vontade de rir. Aquele riso solto e descomedido, riso de quem já não se sente mais neste mundo, que já está naquele caminho sem volta e nem respiro tão característicos destes amantes transcedentais. Aliás,rir enquanto brigam ou conversam coisas sérias viraria marca registrada ao longo dos anos juntos. E até no dia em que ela já não conseguiria mais sorrir, pq lhe faltava forças até para pensar, ele fez aquela piadinha sobre o rabo dos porcos, e os olhos dela deram aquela gargalhada que o fazia amar cada dente dela de maneira singular.
Pois bem, precisava dizer que ele estava certo quando lhe disse que é besteira aquele negócio de sufocar o outro, que sufocados na verdade já estávam desde as primeiras letras. E que não tinha medo de enjoar, na realidade tinha medo de tudo. Mas que esse tudo ainda assim era tão pequeno perto do amor que sentia, que era realmente tolice ficar ponderando os baques surdos e duros que seu coração dava a cada pensamento com ele.
E não era só. Queria também dizer que se o fardo que concebia era aquele que ele havia dito nas escadas e que ela repudiara, que agora então estava-o aceitando, não porque era uma alma caridosa e samaritana, mas porque ele não diria tal coisa se não acreditasse piamente. E se os dois teriam de ser lanternas na escuridão alheia, que assim o fossem. Não discutiria fé com quem havia cruzado seu caminho para restaurá-la. Disso ele entendia bem.
Mas que também nunca se esquecesse de que ela não conseguia ser imune. Não queria mais ficar levando tapas e pontapés à toa. Não mesmo, que não era mulher de sangue morno. E se a sua boa vontade e a sua maturidade forçada a fazia ser mais compreensiva com os outros, que ele também pudesse ser com ela e entendesse que na maioria das vezes ela só queria abrigo. Queria alguém que fosse sensato o bastante para também tomar as dores dela, porque o amor é assim mesmo, justo primeiro para com quem se ama, e depois com o resto do mundo. Ela também tinha motivos para estar ferida, ela também queria alguém que lhe desse razão, ainda que precisasse entender os motivos dos mais fracos e aprender com eles mais tarde.
Ele permeava os pensamentos dela como se estivesse cosendo as partes desjuntas com uma linha marcante. E a cada fim de dia, ela desejava que seu ônibus perdesse o rumo do tempo e fosse parar num caminho mais adiante, onde a vida já se dividia nas prateleiras da sala e onde pudessem tomar banho juntos até seus dedos enrugarem sem pressa.

posted by Fernanda Armstrong at 9:18 AM

 

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