Letras púrpuras para pensamentos incandescentes

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Quinta-feira, Novembro 04, 2004

 
E quando vêm é sempre enfim...

Assim, como um tiro que estoura todo o peito por dentro, mas que por fora parece ser só um furinho na pele. E a pessoa fica com aquela última expressão derradeira. Os olhos procurando ele na rua, o sorriso meio sem graça por estar morrendo assim, no meio da multidão sem nenhuma formalidade. Dobra os joelhos, senta no chão...não sente dor. Absolutamente nada. E ela que desde menina sempre achou que a morte era dolorida, não conseguia conceber aquele estado inerte que se encontrava. Morrer era calmaria em peito agitado. Eis então, que sem aviso prévio algum, preso em algum lugar entre o coração e a garganta, está o grito que não saio na hora do disparo. E ele vem subindo, límpido, sonoro e arredio, e quando estoura, vem clamando pelo nome dele. E aquilo assusta os transeuntes que estavam em volta da mancha de sangue que ficava cada vez maior ao seu redor. Nem um pio na multidão. E ela chora, um choro alto, quase gritado. E num novo estouro, cessa. Os olhos fecham macios e ela aperta a bolsa contra o corpo com uma força descomunal.

Estava voltando depois de buscar as fotos que ele tirara no dia passado naquela casa que revelava retratos. Era longe, a dois ônibus de distância, mas era preciso. Estavam juntos há 7 anos, mas só agora iriam se casar. O cartório pedira "2 fotos 3X4 recentes", e ele não tirava fotos desde o alistamento militar. Por insistência dela, ele vestiu a camisa de linho antigo e a gravata vinho com bolinhas que se confundiam com os furinhos das traças do fundo do armário. E com a ajuda de um gel fedorento, abaixou os cabelos rebeldes e espinhentos. Ela achou que nunca o vira tão lindo. Ele achou que nunca havia estado tão pavoroso. Mas se a agradava, nada mais certo. A vida dela já era tão descolorida, tão carente de dias felizes, que ele não se importava em parecer um palhaço se isso a fazia mostrar os dentes. E o sorriso dela era tudo o que tinha de mais brilhante no mundo.

Sete anos e ele ainda conseguia se aquecer só de olhar para ela. Casar era mera formalidade, eles sabiam, mas era preciso. Concordaram assim, sem discussão maior, um dia na mesa do café, " A gente poderia casar , né amor? Me passa a manteiga?", ele disse sem pretensão, mas observando-a atentamente com os cantos dos olhos negros." Sim, querido. ", e aquele sorriso mais lindo na face amassada de sono o fez ter mais certeza ainda da proposta.

E agora, já longe, ela pensou nas orelhas dele. Pequenas e macias. E se deu conta de que a cegueira estava vindo, assim como a surdez que já havia se instalado nos seus ouvidos há muito tempo. Só via a ele. E as pessoas a sua volta já eram nuvenzinhas com formatos humanos. "Triste e tranquilo...até que não é ruim morrer assim, vendo ele.". E começou a delirar. Uma senhora muito velha dizia para alguém que era claramente um turista yanke : " coitada...já está conversando com Deus.". O turista pareceu concordar e murmurou um "yes...angels are comming...". Nessas horas as pessoas costumam dizer a mesma língua. E ela dialogava com o passado. Sentado na cadeira da mesa da cozinha, mexendo em contas e papéis, ela abraçada ao seu pescoço, pedindo para irem dormir. "Só mais um pouco, querida...", ele dizia segurando suas mãos geladas. " Ah amor, estou cansada. Quero ir logo...", dizia ela olhando para o nada, sentada no chão frio e assustando o público que se reunira para assistir seu último e derradeiro episódio. E ele respondia, no delírio dela " vai indo...eu vou jajá.". E ela então, segurou um rosto imaginário nas mãos e disse com uma voz que soava macia e quente, " vou estar te esperando...mas não demora que a minha vida se vai a cada minuto longe de vc...". Ele nunca soube porque ela havia dito algo tão dramático...afinal, ia estar no quarto ao lado. Mas hoje, hoje talvez entendesse que ela ensaiava inconscientemente a cena final.

Há quem diga que foi possível vê-la partir, levada pelas mãos por um delírio que já não fazia mais parte só da imaginação dela. Os olhos fechando e a voz sumindo. Quem esteve lá jamais pode esquecer aquela cena, e é capaz que contem até hoje para as visitas que vão em casa, sobre " a mulher que levou um tiro no peito e morreu de coração partido....".

Do outro lado da cidade, a dois ônibus de diferença, ele chorava sentado no chão da cozinha de azulejos azuis. Atônito, encabulado de estar vivo, afinal, metade da sua vida estava se esvaindo naquele momento, junto a dela. Estava cortando cebolas, e chorando como manda a cartilha, mas a faca escapou e cortou-lhe o dedo indicador. Num reflexo mais do rápido, ele colocou o dedo na boca afim de sugar o sangue bordô que jorrava do talho que ia da ponta até a primeira dobra do dedo, mas qual não foi sua surpresa ao notar que o sangue que sorvia não era o seu, mas o dela. E a vida foi-lhe indo embora a olhos nus, cada minuto longe dela era sempre um a menos.

posted by Fernanda Armstrong at 6:42 PM

 

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