Adiante

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Sábado, Dezembro 04, 2004

 
Por volta do dia 10 de janeiro de 2004
Lost in Translation

Ela prendeu os cabelos propositadamente desleixados, deixando soltas, mechas displicentes que faziam cócegas na nuca. Entrou, pé ante pé, na banheira com água quente e fechou os olhos.
Ele entrou sorrateiramente como sempre fazia. Disse algo sobre a água estar muito quente e sentou-se ao seu lado. Permaneceram assim, quietos, mexendo com a ponta dos dedos na água e sorrindo furtivamente quando seus olhos se encontravam. Ela sentia cócegas com o jeito que ele lhe ensaboava as costas e ele achava graça na maneira que ela lhe lavava os cabelos, delicada e desajeitada.
Naquele dia não disseram muita coisa. Instintivamente sabiam que não era preciso, bastava estar lá.
Ela que estava um tanto cansada de si mesma e de onde estava, sentia-se como naquele filme da Sofia Coppola, precisando de alguém que murmurasse palavras de conforto ao pé do ouvido.
Ele, que se sentia alheio a tudo, não conseguia ignorar a voz no fundo da cabeça que repetia incessantemente "você não vai ser o mesmo depois dela", fazendo ecoar no coração com batidas surdas.
Ela encostou a cabeça no ombro dele e ele entrelaçou os dedos nas mãos coloridas dela. O espelho embaçou por completo, mas eles não mais precisavam ver reflexos, a realidade se fazia bonita agora. Não estavam mais sós. Permaneceram assim como se no meio dos seus dois mundos confusos, surgisse um outro, surreal e imaginário, onde não houvesse nada além da boca dela e do cheiro dele. Completamente ilhados, calmamente vivos, eternamente atados.

posted by Fernanda Armstrong at 11:04 AM

 

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