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Sexta-feira, Agosto 12, 2005

 
ENSAIO 1 - CENA ELÁSTICO

Escrevo enquanto vc ainda está aqui. Deitado do meu lado, o mesmo lado esquerdo que dorme há mais de 5 anos. Escrevo assim, com pressa no escuro, porque sei que pela manhã, não estará mais. Eu sempre senti que um dia pela manhã, vc fosse embora sem me acordar. Acho que chegou a hora.
A lista de reclamações já é muito maior do que a nossa lista de compras do supermercado. Eu sei. Eu abro a boca para pedir desculpas e as palavras se perdem no ar, tomam direções erradas, flechas....viram flechas. Por isso escrevo. Para não ter que olhar nos teus olhos e me descubrir fraca, ferina, falsa. Falsa, porque não sou assim. Sou aquela que você ama, não essa vaca que ando sendo, essazinha que bebe demais, toma comprimidos demais, fala demais.Típico. Cartas de perdão. Isso é típico.
E quer saber, eu nunca me acostumei com você pela casa. Você sempre foi um estranho dormindo na mesma cama. (suspiro) E isso é o que eu mais amo em você, que de familiar já me basta eu. E eu nem me aguento...Você...você eu não preciso aguentar, você é surpresa, você é novidade. Sempre.
Ontem, quando discutiamos na cozinha, eu reparei numa coisa: seu cabelo. Ele está horrível! Curto, desajeitado, estranho. E enquanto você me dizia todas aquelas frases que começavam com " vc é que..." e terminavam sempre comigo sendo a culpada, eu só conseguia pensar no seu cabelo curto feio.
Por isso, amor, dessa carta. Que eu percebi naquele instante, que queria ver teu cabelo crescer. Estar junto quando ele atingisse aquele comprimento que eu gosto. E depois cortar ele de novo, curto, só para ver crescer tudo de novo. Eu ainda quero estar perto.
Eu sempre senti que um dia pela manhã, vc fosse embora sem me acordar. Sei também que o fim é curto, emenda com o começo.

Vai...não te preocupa o tempo traz.

Eu, M.


posted by Fernanda Armstrong at 9:50 PM

 

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