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Terça-feira, Dezembro 20, 2005
Astronauta de Mármore
Mãe e Pai,
Hoje eu entrei por aquela porta de vidro que tantas vezes eu olhava da janela do carro. É.... aquele prédio imenso, na beira da Marginal. De dentro do carro, eu apontava para lá e dizia pra você, mãe, " É lá que eu vou trabalhar, mamãe!". E você sempre acreditou. Aliviada e ainda assim, cheia de gana. É como me sinto...Como se eu tivesse chegado no primeiro estágio do que sempre sonhei pra minha vida.
Eu sempre senti que precisava resgatar vocês do buraco que, indiretamente, eu meti. Foi assim que eu me senti a vida toda. Tentando ser o bastante, tentando ser boa o suficiente para apagar escolhas erradas que nem ao menos foram minhas. Como se eu pudesse fazer valer cada dia triste da juventude perdida de vcs dois. Que por mérito meu e seu, eu sou quem eu sou.
E por isso tão exigente comigo, com os outros, tão feliz com meus acertos, tão decepcionada com meus erros, tão pouco humilde às vezes, tão triste pela mesma razão. Coisa da minha cabeça, mas que me faz ser a "filha responsável" que vc acha que eu sou, pai, e para ser recompensa por tudo que vc fez por mim, mãe. Porque eu quero ser o seu projeto que deu certo, porque eu quero que tenha orgulho de mim. Porque eu gostaria de gritar para as pessoas que destrataram vocês, que criticaram, que acharam que eu era um erro...." Olha pra mim, eu sou filha deles!". É um misto de orgulho e de dever cumprido.
Lembro do dia em que vi vcs felizes pela última vez, lembro do dia em que vc foi embora, pai, e do dia em que vc foi pra longe, mãe. E sei o quanto eu cresci nesses dias, o quanto fiquei velha em questão de segundos. E hoje, quando pisei naquele prédio todo espelhado e gigantesco, consegui concretizar mais um pedaço do projeto que fiz para mim e para vocês. Ainda que não passe, ainda que não seja dessa vez, eu sei que estou no caminho certo. Que os esforços e todos os dias em que me senti sozinha, valeram para me empurrar adiante, mesmo quando a vontade era de me enfiar embaixo da terra e não sair mais.
Por todos os dias em que eu tive raiva de vcs, por todos os dias em que eu quis ter nascido em outro lugar, por todos os dias em que tivemos que nos mudar e adaptar a nossa realidade para o que tínhamos. Por todos os dias em que eu vi minha mãe chorando no quarto sozinha, por todas as vezes em que eu fiquei esperando vocês voltarem tarde da noite, por todas as vezes que meu pai me ligou chorando de algum lugar perdido por aí, por todas as vezes que eu tive que ser mais velha do que sou. Por todas as vezes que eu fui tola e vocês tolerantes, por todas as vezes que vcs ficaram acordados porque eu tinha medo de dormir, por todas as vezes que eu tive que bater o pé e pedir desculpas depois. E crescemos juntos, amadurecendo e aprendendo. Ninguém precisou me dizer "Vai...faz o que vc quiser da sua vida agora que é adulta!". Eu sempre fiz, e sempre me pareceu implícito, porque confiança e amparo eu tinha. Queria dividir o quanto sou feliz hoje.
- O que vou fazer sem você aqui? - eu perguntei pra você quando você foi embora.
- Vamos tecer os nossos sonhos em duas mãos. Você faz a sua parte aqui e eu a minha parte lá.
Hoje temos uma colcha. Imensa, toda colorida, irregular, mas completa. Linda. Podemos começar a próxima, maior ainda.
posted by Fernanda Armstrong at 9:57 PM
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