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Quarta-feira, Abril 05, 2006
Hora do Brasil
O tapete marcava os joelhos, mas agora faltava pouco. Por trás da cintura larga do homem, ela avista o relógio. Cinco e quarenta e três. Ele veste calças cinzas, camisa branca, sapatos gastos no bico. Um ordinário qualquer, fedendo a suor depois do expediente. Ela virou para o lado e fechou os olhos por 3 segundos, 1...2...3...vontade de vomitar. Respirou fundo, pegou o maço e bateu a caixa na palma das mãos, mania do pai. O homem, já vestido, empunhou o isqueiro e acendeu lentamente a ponta do cigarro que ela segurava frouxamente entre os dedos. Obrigada, já vou indo. Ela apertou o sutiã com habilidade, jogou o vestido branco por cima do corpo e calçou as sandálias vermelhas.
Nem mais um minuto ao lado deste traste... sufocando o vômito que voltava a temperar a garganta, ela apertou, pelo menos, 15 vezes o botão do elevador, antes de decidir usar a escada. Enquanto descia os degraus, observava o vão da escada caracol. Desde criança tinha medo e fascinção por este tipo de vão. A tia Lurdes morava naquele prédio da Casimiro da Cunha, que tinha uma escada igualzinha. Num natal em que foram visitá-la,devia ter uns quatro ou cinco anos, ficara pendurada pela alça do vestido. O pai consegiu puxá-la para cima, mas isto lhe rendeu uma surra de cinta e três dias sem se sentar. Depois do incidente, e apesar do medo, sempre que iam visitar a tia solteirona, ela dava um jeito de dar uma espiadinha pelo buraco. Lembrava na pele, a sensação de estar pendurada, como se flutuasse. O ar empurrando para cima e a gravidade para baixo.
Começava a entardecer quando saiu do prédio na Av. Atlântica. O porteiro baixou o olhar quando a moça de vestido branco passou. Na certa julgava seu cabelo embaraçado e sua roupa amarrotada. Todo mundo sabia. O passo parecia ensaiado para que a cadência não demonstrasse o rastro de solidão que deixava para trás. Pelo menos, era o que ela achava. Certamente, as pessoas estavam muito mais preocupadas com o próprio negrume que lhes consumia o peito, do que com o do outro.
"Sentiu seus saltos no asfalto...o vento na perna, embaixo da saia...a blusa meio aberta branca...sorriu...mas não sabe pra onde ir..."
Entrou no táxi e bateu a porta. Não, moço, não tenho geladeira na minha casa. Hora do Brasil. Sempre se sentia pontualmente miserável neste horário. Bastava a voz começar a declamar no conhecido tom entediante e as luzes da avenida se acenderem todas de uma vez só, para que ela se lembrasse do porquê e se esquecesse automaticamente do hoje. O olhar perdido na janela já era parte da rotina. Ela girou a aliança no dedo e fechou os olhos. Mais um dia matando um pedaço dele dentro dela, custasse o que custasse
posted by Fernanda Armstrong at 12:54 AM
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