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Terça-feira, Maio 02, 2006

 
Céu de cada um

Os cabelos estavam empapados de suor. Era como se tivesse sido atropelada por um trem fora de controle. Ressaca.Sentada no chão, com a cabeça apoiada na privada, ela olhava fixamente para as paredes verde-limão, que cismavam em contrastar com os batentes rosa-fúcsia das portas e janelas. Aonde estava com a cabeça para pintar a casa daquela cor?
Ahhh tinha sido idéia do Seixas, quando ainda namorava aquele traste. Ficara sabendo uns dias atrás, que o maldito iria se casar. E na igreja! Bem ele que tinha horror a casamento, horror a uma vidinha de "proletário feliz".

Levantou com dificuldade, abriu a geladeira e deixou-se refrescar no ar úmido que vinha lá de dentro. Por um segundo, permitiu-se sorrir. O frio fez gelar a espinha quente e Zu acordou do transe. Zu. Era como os outros a chamavam. Ninguém sabia exatamente como se chamava e nem quantos anos tinha. A franja reta e os peitos pequenos a faziam parecer bem mais nova. Não tinha carteira de motorista e achava um horror andar de ônibus. Usava bicicleta, mas só quando não estava bêbada. O que ultimamente andava raro. Uma vez, caindo pelas tabelas, Zu voltava para casa depois de ter ido num show do Tom Zé. Cara foda, o Tom. Vinha pensando na degradação da sociedade e xingando mentalmente os países capitalistas do primeiro mundo. "Eles usam crianças chinesas para costurar tênis Nike à mão, porque as mãos delas são menores e cabem dentro do calçado", disse, certa vez, o PJ, negão engajado, militante do partido. No último fórum social tinham dividido a barraca. Ficou com ciúmes, quando ele decidiu ir dormir na barraca da ativista sueca e loira, um eufemismo ambulante, do Greenpeace. Os pensamentos de Zu iam longe, variando entre os xingamentos mentais ao PJ e aos EUA, quando um caminhão furou o farol e esbarrou em sua bicicleta. Até hoje dá para ver os pontos que levou no cotovelo.

Dentro da geladeira não tinha nada além de uma fatia de melancia. Besteira dizer que Zu não comia carne. É óbvio. Soja era a salvação. Verdade seja dita, não aguentava mais os bifes insossos de carne de soja, muito menos as sopas com gosto de água suja do restaurante vegetariano da Augusta. Quando dormia, seus sonhos eram inundados por sabores que variavam, ora da gordura do bacon, ora do sabor de um queijo parmesão. Acordava salivando, mas se obrigava a vomitar o gosto forte do desejo, antes mesmo de escovar os dentes.

Gostava de cinema. Espaço Unibanco, HSBC, Frei Caneca. Vez ou outra o Marabá, porque fica perto do Satyros, onde bate cartão toda quinta. Claro que não assiste lixo americano, filme-pipoca, bahh... Gostou bastante de Kill Bill, mas só porque era Tarantino. "Você tem que entender as sutilezas do discurso dele".
As privações tendem a ser justificáveis somente pelo nível de prazer que aquela coisa te dá. Talvez por isso, Zu ignore alguns pensamentos.

Ali, sentava na mesa da cozinha verde-limão, ela toma um analgésico com leite de soja. "Minha vida poderia ser gravada por Costa-Gravas", pensa singelamente, apoiando a cabeça no braço e se esquecendo da indústria farmacêutica e seus males. O pensamento a invade sem constrangimento. Relembra toda a sua trajetória, toda a sua luta e instantaneamente se sente bem. Bota um disco do Chico para tocar e veste a saia verde manchada, combinando com as sandálias de tiras de couro. A vaidade escondida, ainda pede uma fivela de conchas que comprou em Trindade, no Reveillón de 90.

Coloca o resto do leite para o gato (que, diga-se de passagem, odeia leite de soja) e dá um pouco de água para as plantas.
Tudo vai bem, se não pensa muito na solidão que guarda a sete chaves. Dor que invade as entranhas no meio da noite e faz sentir gosto de carne na boca e no corpo. Faz falta ter pensamentos condizentes com a verdadeira vontade da alma.
Zu procura não pensar, porque sabe que sempre dói. Pedala a bicicleta com calma e vai comprar mais erva hidropônica, quem sabe no fim do dia, as cores das paredes pareçam mais amenas .

posted by Fernanda Armstrong at 12:12 AM

 

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